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"O Riso de Faca"

 

"O Riso de Faca"

por Desire Lahe

Lia era uma mulher que ria de tudo.
Mas seu riso não era leve.
Era um riso com pontas, um riso de faca.

Cortava antes que pudessem tocá-la.
Machucava antes que ousassem machucá-la.
Desprezava antes que sentissem pena.

Ela dizia que tudo era uma grande piada.
O amor, uma encenação.
A amizade, um teatro.
A vida, um roteiro mal escrito.

Quem se aproximava, tropeçava nas palavras afiadas que ela lançava como pedras, disfarçadas de brincadeira.
"É só ironia", ela dizia.
"Não leve a sério", ela avisava.
Mas ninguém via o nó que ela engolia todos os dias — aquele que travava sua garganta cada vez que sentia vontade de dizer: me escuta, me olha, me abraça.

Quando criança, Lia havia aprendido que chorar era fraqueza.
Numa tarde, chorou no colégio por causa de uma brincadeira maldosa.
Riram dela.
Chamaram-na de “dramática”.
Desde então, ela decidiu ser a primeira a rir.
Mas por dentro, nunca mais riu de verdade.

O sarcasmo virou sua armadura.
A ironia, seu escudo.
E o afeto? Um campo minado.
Toda vez que alguém chegava perto demais, ela fazia piada.
Toda vez que sentia algo bonito, ela debochava.
E assim, Lia foi se tornando uma ilha: isolada, seca, mas aparentemente segura.

Até que um dia, alguém não riu.
Alguém olhou além da piada.
E disse:
— Você está doendo atrás desse riso, né?

Ela congelou.
Ninguém nunca tinha dito isso.
Ninguém nunca tinha escutado o silêncio por trás da gargalhada.

Naquele instante, Lia não soube o que responder.
Mas quando chegou em casa, em vez de rir sozinha do absurdo da vida, ela chorou.
Chorou como quem lava uma ferida antiga.
Chorou como quem finalmente aceita que não precisa ser engraçada para ser amada.

A partir dali, começou a descobrir que existe força em se permitir sentir.
E que a verdadeira coragem…
É falar com o coração nu.


Reflexões sobre o conto:

Esse conto revela, camada por camada, o que muitas pessoas vivem sem perceber: a escolha inconsciente de se proteger rindo por fora enquanto doem por dentro.

Pessoas que falam apenas através dessas lentes costumam usar esse tipo de comunicação como uma barreira — uma forma de se proteger de se mostrar verdadeiramente.

O que ela está protegendo?

Geralmente, algo que ela viveu lá atrás fez com que ela acreditasse que ser vulnerável é perigoso. A ironia é como um escudo que diz: “Se eu fizer piada de mim antes, ninguém pode me machucar.” Ou: “Se eu debochar de tudo, nada me atinge de verdade.”

Algumas possíveis raízes dessa proteção:

  1. Medo de ser ridicularizada — talvez, em algum momento, ela tenha se exposto emocionalmente e isso tenha sido usado contra ela. Então agora, ela ridiculariza tudo antes que alguém tenha a chance de fazê-lo.

  2. Medo de ser rejeitada — ela pode sentir que não seria aceita sendo 100% sincera, então prefere manter a superficialidade das piadas e da ironia para não mostrar o que realmente sente.

  3. Sensação de inferioridade ou insegurança — ironizar os outros e a si mesma pode ser uma forma de nivelar o campo, como se ela dissesse “ninguém aqui é melhor do que ninguém” — mas isso geralmente esconde um sentimento interno de inadequação.

  4. Ambiente familiar hostil ou crítico — se ela cresceu num meio onde emoções eram vistas como fraqueza, ou onde o sarcasmo era a linguagem comum, ela pode ter adotado esse estilo como forma de sobreviver emocionalmente.

Ou seja: o sarcasmo como linguagem constante revela uma dor não elaborada. A armadura vem da ferida.


Perguntas Reflexivas:

 Aqui estão algumas reflexões que ele pode despertar, tanto em nível pessoal quanto terapêutico:

  1. O que eu estou escondendo atrás do meu “riso” ou da minha “força”?
    – Será que eu também uso ironia, sarcasmo ou piadas para evitar que vejam minhas dores?

  2. Quais foram os momentos da minha infância ou juventude em que aprendi que mostrar emoção era perigoso?
    – Alguma vez riram de mim quando eu fui sincero/a com meus sentimentos?

  3. Como eu reajo quando alguém tenta se aproximar de mim emocionalmente?
    – Eu permito? Ou levanto barreiras disfarçadas de “brincadeiras” ou “autossuficiência”?

  4. Existe alguém ao meu redor que usa o sarcasmo como proteção?
    – Como seria olhar para essa pessoa com mais empatia, em vez de julgar o comportamento dela?

  5. Será que o “riso de faca” de alguém que conheço é, na verdade, um pedido de ajuda não dito?

  6. Estou disposto/a a ser visto/a com o coração nu?
    – O que me impede de me mostrar de forma mais autêntica e vulnerável?


Nem todo riso é leveza — às vezes, é defesa. Que possamos olhar com compaixão para quem se protege com palavras afiadas, pois por trás da lâmina, quase sempre, existe um coração ferido querendo ser amado.



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