"O Riso de Faca" por Desire Lahe Lia era uma mulher que ria de tudo. Mas seu riso não era leve. Era um riso com pontas, um riso de faca. Cortava antes que pudessem tocá-la. Machucava antes que ousassem machucá-la. Desprezava antes que sentissem pena. Ela dizia que tudo era uma grande piada. O amor, uma encenação. A amizade, um teatro. A vida, um roteiro mal escrito. Quem se aproximava, tropeçava nas palavras afiadas que ela lançava como pedras, disfarçadas de brincadeira. "É só ironia", ela dizia. "Não leve a sério", ela avisava. Mas ninguém via o nó que ela engolia todos os dias — aquele que travava sua garganta cada vez que sentia vontade de dizer: me escuta, me olha, me abraça. Quando criança, Lia havia aprendido que chorar era fraqueza. Numa tarde, chorou no colégio por causa de uma brincadeira maldosa. Riram dela. Chamaram-na de “dramática”. Desde então, ela decidiu ser a primeira a rir. Mas por dentro, nunca mais riu de verdade...